COMPORTAMENTO, Literando

A cor do preconceito

3 de março de 2015

 

As cores são nada mais nada menos que uma percepção visual resultante do reflexo da luz na retina. Tirando as aulas de educação artística na escola e os frustrados quadros feitos na infância, meu contato com as cores, mais amplo e mais íntimo veio na faculdade. Estudando semiótica e fotografia, aprendemos entre outras coisas, sobre cor quente e cor fria e ainda a intenção das cores, você sabia que as cores têm personalidade?

O azul, por exemplo, é uma cor tranquila, que não faz mal para ninguém. Não sou eu que estou dizendo isso, o alemão Ohann Wolfgang Von Goethe, dedicou muitos anos à essa pesquisa. Mas o assunto que quero tratar tem outra cor. É que esses dias entrei em um Bistrô e enquanto esperava o meu pedido, fiz o que faço sempre, me perdoe os que comem acompanhados e apressadamente mas eu quando como só, me deixo perder em observações do ambiente e principalmente das pessoas, é involuntário, perdoe esta minha indelicadeza de jornalista.

Enquanto observava os tons rosados do ambiente e sentia um leve cheiro de pão assando, uma garotinha e sua mãe conversavam enquanto comiam. Não era bem uma espécie de conversa, a mãe com o celular na mão, vez ou outra dirigia algumas palavras à filha que por sua vez jogava em seu tablet rosa pink e resmungava outras palavras para mãe, sempre olhando para a tela.

Uma das coisas que pude ouvir foi uma exclamação da menina. “Matei o boneco do mal! ” Disse ela vibrando sua conquista. Confesso que fiquei curiosa em saber que tipo de jogo era esse, que aquela menina de apenas uns sete anos jogava com tanta destreza. A mãe, ainda no celular, deu de ombros, a filha tornou a falar: “mãe, o mal não é o preto? ” A mãe continuou a não responder dando espaço para a conclusão da filha que veio logo em seguida: “Deus é do bem e é branco, então o mal é o preto”, matei o boneco certo!

Não sei porque, mas a minha interpretação fugiu do campo semiótico e foi fazer um paralelo com o que as pessoas associam todos os dias. O preto, e aqui eu estou me referindo ao negro mesmo, é quase sempre associado ao mal, ao ruim, ao perturbador, o malfeitor, o primeiro a ser abordado pela policia.

Talvez isso seja culpa de nossa cultura, desde pequenos, aprendemos que o boi da cara preta, ou o preto do saco são personagens que querem fazer o mal, nos desenhos ou programas para criança o negro é sempre o vilão. De uma forma ou de outra, isso acaba entrando e permanece no inconsciente humano que se não for trabalhado, o resultado será mais jovens e adultos intolerantes que podem até cometer crimes pelo simples fato do outro ser “de cor”.

Von Goethe que me desculpe, sei que essa não foi a intenção, mas sua psicologia ajudou muito na formação de pessoas racistas. Os ensinamentos e lendas que acabam sendo incorporadas pelas crianças são sem dúvida, mais perigosas que o boi da cara preta. Por que como diria Nelson Mandela, “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”

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1 Comentário

  • leilampb2@yahoo.com.br'
    Reply LEILA MARIA PORTELLA BARCELLOS 4 de março de 2015 at 10:51

    Crescemos vendo, ouvindo e constatando o preconceito. Cabe a cada um de nós mudar isto através de atos como o teu, dizendo ao povo que o aprendido não é o correto, que seres humanos são iguais independente das cores que apresentem ou características físicas que trazem, o que muda em cada um é o caráter, este sim formado pelas escolhas feitas durante a vida.

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