COMPORTAMENTO, Papo Calcinha

Maria #DiaInternacionaldaMulher

8 de março de 2015

Olá, me chamo Maria. Tenho 22 anos, negra, moradora de comunidade. Meu pai é gari e minha mãe dona de casa. Tenho mais um irmão. Tive tudo para desistir da vida e acabar me tornando apenas mais uma Maria nesse mundo, mas hoje venho contar a minha história para vocês. Acredite, é uma história de vitórias, apesar das dores.

Sempre tive o melhor exemplo dentro de casa, apesar de sermos muito pobres, moradores de favela, meus pais sempre me ensinaram que não precisava me envergonhar das minhas raízes, me mostraram que a melhor solução seria me dedicar aos estudos para poder ser alguém na vida e quem sabe poder mudar a nossa realidade.

Quando ainda pré adolescente precisei começar a trabalhar para ajudar em casa, já que o que meu pai ganhava não dava para cobrir todas as despesas da casa. Minha mãe fazia coisas pra fora como doce, salgadinhos, sacolé… Fui procurar emprego, mas se pra mulher já é difícil, imagina eu: uma criança ainda e negra. Meu pai tinha um conhecido que estava procurando uma empregada doméstica. A única coisa que meu pai pediu foi que eu continuasse meus estudos.

Alex Genaro

(Foto: Reprodução/ Alex Genaro)

Fui para a casa da família Silveira no asfalto. Os pais eram muito bondosos comigo, ficava lá durante a semana e voltava para casa na sexta-feira, cheia de saudade dos meus pais e do meu irmão pequeno. Eles tinham um filho pouca coisa mais velha que eu, devia ter uns 16 anos, o “senhorzinho”. Sabe como é moleque adolescente, não conseguia ficar calado e vivia jogando piadinha pra mim.

Até um dia que o sr e a sra Silveira foram viajar e tive que ficar uma semana sozinha com o “senhorzinho”. Ele aproveitou o momento e fez a maior crueldade que eu poderia conhecer nesse mundo: ele abusou de mim. E naquele momento eu fui tratada como um objeto, um bicho. Nunca havia me sentido tão subjugada a alguém. Ele invadiu meu quarto e disse que ia dar o que eu merecia, que já não aguentava mais as minhas provocações, que eu me oferecia a ele. Eu nunca havia feito nada disso, mas a forma que ele agia parecia que eu era culpada por tudo. Ele me pegou a força e não tinha a quem gritar.

Quando ele foi embora me senti suja, envergonhada, não queria imaginar o que meu pai, uma pessoa de bom coração, mas bronco, faria se descobrisse. Não aguentei, fui embora. Passei o dia na rua, sem rumo, precisava pôr meus pensamentos em ordem.

Voltei para casa dos meus pais e inventei uma mentira. Não poderia humilhar meus pais de tal forma. Comecei a me virar, guardando dentro de mim a maior dor que alguém poderia ter, mas pensava comigo: vou dar a volta por cima, mostrar a minha força.

Meus ancestrais morreram em troncos, foram algemados, presos, sofreram para mostrar como minha raça, como assim eles chamam, é forte e guerreira. Eu poderia pensar que sou a pessoa mais errada do mundo: preta, pobre, macumbeira, favelada. Assim que eles me viam.

Foto: Reprodução/Maria Preta

Foto: Reprodução/Maria Preta

Resolvi que entraria numa universidade. Pedi ajuda na comunidade e estudei em casa, não tinha dinheiro para pagar um cursinho. Passei no vestibular pra Direito na Federal. Que audácia da negrinha, não?

Nesse tempo meus pais envelheceram, mas continuavam touros, batalhadores. Meu irmão seguiu um caminho errado. Infelizmente ele não soube ouvir os ensinamentos dos meus pais e as más influências marcaram presença na vida dele.

contioutra

Reprodução/Contioutra

Na Universidade aprendi sobre o feminismo, conheci o coletivo de mulheres e a importância da luta. Esse último apenas reconheci, pois acredito que toda mulher, seja ela negra, branca ou parda, deve lutar pelos seus direitos. Hoje já conquistamos muitas coisas: o voto, o direito de trabalhar, já somos chefes de família, já temos uma lei para nos proteger e agora nosso sofrimento virou motivo de cadeia.

Mas nossa luta não acabou. Na verdade, nunca vai acabar. Ainda somos questionadas quanto a nossa sexualidade, nosso ~dever~ de casar e ter filhos. Precisamos legalizar o aborto, para que mulheres deixem de morrer na mão de açougueiros que se dizem médicos. Devemos lutar por mais representação política, maior reconhecimento no mercado de trabalho. Nossa luta é para que deixemos de ser consideradas o sexo frágil.

Hoje, no coletivo, ajudo outras garotas que, assim como eu, sofreram não mãos de pessoas de má índole.

Nesse dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, gostaria que cada mulher lembrasse o real motivo dessa data e que cada dia mais nossa luta se fortaleça. Não somos minoria, mas somos tratadas como tal. Mostre você também, mulher, a sua independência, sua capacidade, sua força e garra. Só nós sabemos o que é ser ~mãe solteira~ (mãe não é estado civil), o que é trabalhar o dia todo e ~ter a obrigação~ de cuidar da casa. De ~atender às necessidades~ de nossos parceiros.

Reprodução/CanalSap

Reprodução/CanalSap

O feminismo não é uma briga de poderes para acabar com os homens, mas uma luta de reconhecimento da mulher. Então, Mulher, nesse dia 8 de março, RECONHEÇA-SE!

E tenha um feliz Dia Internacional da Mulher!

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Maria é uma personagem fictícia, mas que conta uma história bem presente na realidade das mulheres do mundo inteiro.

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