COMPORTAMENTO

O buraco é interior

20 de agosto de 2016

Acorda. Se olha no espelho. Não gosta do que vê. Toma banho. Alisa o cabelo, já que seus cachos são horríveis. Aprende uma técnica nova pra afinar o nariz com maquiagem. Pega uma roupa que gosta. Não, essa não, vão me achar atirada demais! Acaba escolhendo aquela que não gosta tanto. Mas tudo bem. Deu vontade de comer aquele bolo, mas não pode, está de regime. Bebe só um copo d’água e sai.

Sai olhando por aí as propagandas nas ruas: mulheres perfeitas, loiras, magras, traços finos, olhos claros e confiantes. Então, se olha: morena sem sal, acima do peso,  traços brutos, olhos pretos, mortos e inseguros. Quem seria capaz de amar alguém assim? Mas tudo bem.  Depois de um dia de trabalho, abre o instagram e mais uma vez, começa a tortura. Corpos perfeitos. Amores perfeitos. Vidas perfeitas.  E morre de vontade de ser alguém que não é. E morre por dentro todos os dias por ser alguém que não gosta, alguém que não quer.

Cresceu ouvindo que deveria se encaixar, mas nunca conseguiu. Sentia-se como uma peça errada no meio de tantas certas. Apenas uma menina frustrada, perdida num caminho com várias setas. Seja isso. Não seja aquilo. E de tanto seguir essas regras inúteis, tornou-se sua própria ferida. Deixou passar aquela covinha linda que se forma quando sorri. Fingiu não perceber suas curvas alucinógenas. Não reparou na beleza de seus cachos naturais. Gastou muito tempo tentando consertar seus pequenos grandes “defeitos”, na busca incessante por ser perfeita.

Ela pode ser Maria, Camila, Beatriz ou Rafaela. Pode ser eu que vos escrevo, pode ser você que lê. Afinal, quem nunca desejou mudar uma coisinha aqui ou um defeitinho ali? Ok, isso é normal. Mas que não nos transformemos nela. Escrava da beleza que fez disso sua prioridade total. Então, que sejamos nós. Com nossas sardas, quilos a mais ou a menos,  cachos e franjinhas. Negras, brancas, amarelas. Ruivas, loiras, morenas ou coloridas. Que sejamos nós, mas não sejamos ela.

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