Drag Queen: a arte livre de gêneros

28 de maio de 2017

Ser Drag Queen é mais que uma transformação, é ser artista. Vivemos em uma sociedade machista, que valoriza demais os gêneros, causando segregação entre masculino e feminino. A arte Drag hoje representa a quebra desses conceitos e está ganhando bastante espaço midiático. Entrevistamos o maquiador Rodrigo Cassano, adepto da arte há 3 anos. Confira!

História

A arte Drag nasceu nos Estados Unidos, lá por 1870, onde homem se vestiam de forma feminina para representar papéis de mulheres no teatro, já que a participação da mulher era proibida. Por ter surgido em um contexto de opressão e repressão à mulher, e também levando em conta o pensamento patriarcal, a ideia de Drag Queens como pessoas que simulam o feminino ganhou força.

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Homens vestidos de mulher por diversão e no teatro

Porém, a arte Drag deixou de ser algo para imitar o feminino e passou a ser uma arte que quebra barreiras, que destrói o gênero normativo. Ela critica a distinção do feminino e masculino. E, apesar de muita gente não saber, o transformismo pode ser feito tanto por homens como por mulheres, independente da orientação sexual do praticante.

RIOT QUEENS: grupo de mulheres cis e trans adeptas da arte Drag (Reprodução/All RuPaul)

Quebrando padrões

O feminino nada mais é do que normas e padrões ditados por uma sociedade machista que determina que mulher muito maquiada é prostituta, pouco maquiada é desleixada; muito magra é feio, mas não aceitam a mulher gorda (e ainda tentam disfarçar o preconceito através de cuidados com a saúde). Esta sociedade trabalha com um conceito binário de gênero (homem x mulher) e mesmo quando entra para a cena performática tentam enquadrar a arte Drag. Nesse contexto, a Drag Queen se tornou exemplo de gestos performativos como forma de subverter (ou reproduzir) a ordem compulsória entre sexo, gênero e desejo.

A Revolta de Stonewall

As Drag Queens foram bem importantes para o movimento LGBT e transfeministas, pois ajudaram os homossexuais a garantirem liberdade na Revolta de Stonewall.

Nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, os homossexuais enfrentavam um sistema jurídico anti-homossexuais. Na época, poucos estabelecimentos recebiam a classe e, geralmente, esses lugares eram bares. Stonewall Inn era conhecido por receber a população mais marginalizada, o que incluía drag queens, transgêneros, prostitutas e jovens afeminados ou lésbicas masculinizadas.

Os oficiais perderam o controle da situação no Stonewall Inn. A classe homossexual reuniu uma multidão de ativistas para se revoltar, concentrando esforços no estabelecimento de lugares que gays e lésbicas pudessem frequentar sem medo.

Em 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay tiveram lugar em Nova York, Los Angeles, San Francisco e Chicago, comemorando o aniversário dos motins. Marchas semelhantes foram organizadas em outras cidades. Hoje, os eventos do orgulho gay são anualmente em todo o mundo marcando os motins de Stonewall.

A arte Drag vem ganhando ainda mais visibilidade com o reality show “RuPaul’s Drag Race”. Há ainda uma outra arte, a Drag King, mas isso aí fica para outro post. No Brasil temos representantes maravilhosas dessa arte como Pablo Vittar, Léo Aquila, Isabelita dos Patins e rainha Elke Maravilha.

drag queen rupaul“O que é drag? Drag é ser underground e exagerada. Drag é ser política e politicamente incorreta. Drag é ser cafona e ser coutoure. Drag é ser punk e ser padrão. Drag é se mijar de rir e é ser capaz de começar uma revolução. Drag é nunca ter que pedir desculpas, porque Drag é uma questão de ser o que quer que você quer ser.” – RuPaul

O Delírios de Donzelas conversou com Rodrigo Cassano, carioca que faz arte Drag há 3 anos, sua Drag Queen é a diva Cassie Lahan.

Delírios de Donzelas: Rodrigo, o que originou a sua vontade de entrar para o mundo Drag?
Rodrigo Cassano: Eu sempre fui muito interessado por arte, estive envolvido em peças de teatro na escola, trabalhei com artesanato durante um tempo, sempre fui um admirador da moda, sou um apaixonado por maquiagem. Quando era bem pequeno, assistia com a minha avó as Drag Queens no Gala Gay (Baile de Carnaval do Scala Rio) pela televisão, adorava ver a Vera Verão fazendo humor e tive o prazer de conhecer o filme “Priscila, a Rainha do Deserto”. Já na adolescência, acompanhava o trabalho de diversos artistas nacionais nas boates cariocas e a admiração só crescia… Acho que tudo surgiu a partir do meu interesse pela arte e da necessidade de experienciar uma nova perspectiva da vida, onde nos livramos das amarras sociais…

DD: Quais as principais dificuldades encontradas para quem está iniciando?
RC: Inicialmente, a maior dificuldade é se livrar das imposições sociais e entender o que Drag Queen representa para nós. Além disso, algumas pessoas enfrentam o preconceito dentro de suas próprias casas e não conseguem apoio para o trabalho artístico. E, por fim, a disposição de produtos adequados e a preços acessíveis dificulto muito a execução do trabalho de quem está iniciando.

Drag Queen

Cassie Lahan é uma auto-representação de Rodrigo

DD: A arte Drag é uma quebra de padrões, mas existe algum tipo de atitude que reflita o comportamento Drag?
RC: Eu acho que Drag é algo que reflete o nosso interior. É uma forma de expressão artística totalmente livre de padrões ou regras. O que mais reflete o comportamento Drag é a capacidade de transbordar a sua essência através da sua produção artística…

DD: Qual tipo de preconceito você já enfrentou por fazer Drag Queen?
RC: Como LGBTs, nós somos frequentemente vítimas de Homofobia e sofremos também com Machismo. As pessoas ainda incompreendem o nosso trabalho… Além disso, recebemos uma quantidade considerável de comentários transfóbicos que partem de pessoas preconceituosas e que não sabem a diferença entre identidade de gênero e arte Drag.

drag queen

A Drag Queen Cassie Lahan faz performances há 3 anos

DD: Em algum momento Rodrigo e Cassie tem vidas diferentes ou é tudo casadinho?
RC: Eu costumo dizer que Cassie surgiu a partir da minha necessidade de autoconhecimento e essa persona surgiu dentro de mim mesmo. Não vejo como separar ambos! Somos uma única pessoa! Cassie é o resultado da transformação artística visual que o Rodrigo passa. Quando estou in Drag, represento as mesmas crenças, os mesmos discursos, a mesma personalidade… A diferença é apenas a expressão artística visual!

DD: Quais são as suas maiores inspirações?
RC: Minhas maiores inspirações são Elke Maravilha, Elis Regina, Nina Hagen, Grace Jones, Lady Gaga, Madonna, Amanda Lepore, Elvira – A Rainha das Trevas, algumas Drags Brasileiras: As Deendjers, Tiffany Bradshaw e LaMona Divine. E Drags estrangeiras como Bebe Zahara Benet, Violey Chachki, Shea Coulee, Alyssa Edwards, Latrice Royale

Rodrigo e Cassie são um só

DD: Você acredita que as Drags tem papel importante na luta contra o patriarcado, sendo a favor da quebra da ideologia de gênero? Por que?
RC: Acredito piamente que Drag Queen é um movimento artístico que tem importância em diversos setores das lutas contra qualquer tipo de opressão social.  Hoje, vemos as mulheres cada vez mais inseridas no Universo Drag e isso é importantíssimo para a luta contra o Patriarcado por significar a conquista de mais espaço, visibilidade e liberdade. Lutamos pela desconstrução da ideia de que só existem os 2 gêneros que nos são impostos e contra os papéis de gênero… Temos cada vez mais consciência que cada indivíduo tem suas próprias necessidades, sentimentos e vivências e que isso deve receber a devida importância. A nossa luta é por empatia, pela conquista dos nossos direitos e contra qualquer tipo de discurso de ódio.

DD: Deixe uma mensagem para nossas leitoras, por favor.
RC: Eu gostaria que todas as pessoas tivessem a oportunidade de conhecer o Mundo Drag e que pudessem experienciar um pouco da transformação íntima que sofremos. É muito importante lembrarmos que somos todos livres para sermos aquilo que desejamos e que ninguém pode ter o poder de nos roubar as nossas chances. Nunca deixem de acreditar em sua própria força interior ou que digam que você não é capaz. Lutem! E não se deixem enferrujar por essa sociedade que nos quer vivendo como robôs…

Conheça o trabalho de Rodrigo Cassano e da Cassie Lahan

E aí, vocês já estavam por dentro do mundo Drag? Não esqueça de comentar!

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