Precisamos Falar Sobre o Setembro Amarelo e a Prevenção do Suicídio

22 de setembro de 2017
setembro amarelo

Estamos em setembro, mês em que se promove a prevenção do suicídio com a campanha de conscientização conhecida como “Setembro Amarelo”. O objetivo dessa campanha é alertar as pessoas a respeito da realidade do suicídio, seja no âmbito pessoal, profissional, acadêmico, social, familiar etc. Pode ser identificada através da cor amarela em locais públicos e privados, como o Cristo Redentor, pois o símbolo desse trabalho tão sério e que ajuda tantas pessoas é o laço amarelo.

Essa campanha pode ser promovida por quaisquer pessoas e não só pelos profissionais da saúde. Durante todo o mês de setembro são realizadas ações de rua, como caminhadas, passeios ciclísticos e de moto, e abordagens em locais públicos em várias cidades do Brasil, conforme mostra o site do Setembro Amarelo.Após essa breve introdução sobre essa campanha maravilhosa, vou começar a falar a respeito do suicídio, assunto ainda tratado como tabu em nossa sociedade, infelizmente.

Há poucos meses recebemos duas tristes notícias sobre dois grandes nomes do rock internacional: Chris Cornell, vocalista da banda Audioslave, e Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park. Ambos cometeram suicídio. O primeiro se enforcou após tomar dose extra de um ansiolítico que tem como um dos efeitos colaterais a ideação suicida, ou seja, o pensamento de se matar. O segundo foi encontrado enforcado, dois meses depois, no dia em que seria aniversário de Cornell se ainda estivesse vivo. Os dois sofriam de depressão e parece que a morte de Chris contribuiu para a decisão de Bennington, pois eram muito amigos.

Quando fiquei sabendo que os dois haviam morrido dessa forma, fiquei em choque e sem acreditar que dois cantores extraordinários e tão queridos por quem passou pela adolescência nos anos 2000 e gostava ou ainda gosta de rock tinham ido embora. Linkin Park foi referência para mim durante muitos anos e ouço a banda até hoje. A música “Like a Stone” do Audioslave me dá aquele arrepio bom que só música que toca o coração consegue causar.

Ao tentar digerir a notícia da morte de Chester, me perguntei o que estava acontecendo em sua vida e por que ele não pediu ajuda para um psicólogo. O cara era muito bem sucedido no que fazia, tinha filhos, era casado, rico, estava sempre praticando a caridade. Por que a ajuda não chegou até ele? É muito fácil, para quem está de fora do contexto em que as outras pessoas vivem, julgar essa realidade, assim como eu fiz. Porém a depressão, a ansiedade ou qualquer tipo de transtorno de ordem mental não escolhem classe social, cor da pele, gênero etc.

Costumo dizer, e já ouvi muitos falarem, que o suicídio não mata, o que mata é a depressão.

Quem sofre de depressão e/ou ansiedade sabe o quanto é horrível não sentir vontade de sair da cama, de fazer coisas básicas como: tomar banho, escovar os dentes, pentear os cabelos, trocar de roupa, se alimentar, em outras palavras, se cuidar. Quem tem Transtorno do Pânico, como eu, sente um desespero enorme devido às crises de pânico, sensação de morte iminente, sudorese, falta de ar, vontade quase incontrolável de chorar, medo de enlouquecer, rubor facial (sentir quente a região do rosto), entre outros sintomas. E quando perguntam de onde vem isso tudo, ninguém sabe responder. Todo esse conjunto causa a desesperança, isto é, não enxergar mais saída para os problemas, prever um futuro sem expectativas e perder a motivação pela vida. A desesperança culmina no suicídio.

Hoje o suicídio é um problema de saúde pública, devido ao aumento considerável de casos na população mundial e está entre as principais causas de morte. O Brasil é o oitavo país com maior índice, o que representa uma média de 32 mortes a cada dia, 1 a cada 45 minutos. Entre os anos 2000 e 2012 ocorreu um acréscimo de 10,4% na parcela de mortes, sendo mais de 30% em jovens. Estima-se que até 2020 o número anual de mortes por suicídio subirá em 50%. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de morte em pessoas com idades entre 15 e 29 anos no mundo, só perdendo para os acidentes de trânsito.

A conduta suicida pode ser compreendida como uma série de comportamentos, dentre os quais estão:

Pensamento Suicida ou Ideação Suicida: São entendidos como pensamentos, imagens, convicções (crenças) ou qualquer outro tipo de representação mental relatados pela pessoa que deseja acabar com a própria vida.
Planejamento Para o Suicídio: Motivado pela ideação suicida, o sujeito idealiza os detalhes para a realização do ato, como o lugar, o melhor horário e o método a ser utilizado. Em alguns casos, uma carta é deixada como uma forma de se despedir da família e amigos e/ou explicando a motivação.
Tentativa de Suicídio: Ato de autolesão, cujo propósito é a morte, porém a pessoa não consegue se matar. Pode deixar sequelas graves ou não.
Suicídio: Se caracteriza pela intencionalidade (ideação suicida), pelo planejamento e pelo comportamento altamente danoso que resultam em morte.

Os principais fatores de risco para o suicídio são:

• Dificuldade de acesso aos serviços de saúde;
• O estigma associado à busca de ajuda;
• Desastres, guerras e conflitos entre os povos;
• Trauma e abuso (violência sexual, doméstica e psicológica, bullying);
• Transtornos causados por uso de substâncias (álcool e outras drogas);
• Conflitos relacionais, falta de rede social de apoio e perdas;
• Transtornos mentais (depressão, ansiedade, transtorno do humor bipolar, esquizofrenia, entre outros);
• Desesperança;
• Dor crônica;
• Fatores genéticos e biológicos;
• Tentativas anteriores de suicídio.

Conforme citado anteriormente, a pessoa que deseja tirar a própria vida está desesperançosa, acredita que seus problemas não têm solução, se percebe falha e sem valor, e não consegue identificar seu potencial, possui uma tendência a avaliar de forma negativa suas experiências atuais e compreende suas vivências e interações com o meio de maneira errada, sempre com inclinação para a derrota. Esse mesmo indivíduo apresenta visão negativa de futuro, esperando constantemente por frustrações, dificuldades e fracassos.

Muitos acreditam que quem fala sobre suicídio não tem a verdadeira intenção de se matar, pois só quer chamar atenção. Isso é um mito. Quando alguém fala em se matar, temos o dever de escutar e tomar as devidas precauções, por exemplo, indicar a psicoterapia. Nem sempre o suicídio ocorre sem aviso e não é um ato impulsivo. Geralmente os suicidas fazem algum tipo de comunicação, seja verbal ou comportamental, a respeito da sua vontade de se matar. O suicídio pode até aparentar ser um ato impulsivo, entretanto pode ter sido arquitetado durante um bom tempo. Outro mito é que não se deve falar sobre esse assunto, principalmente na mídia, pois mais pessoas irão se matar. Fazer com que o suicida fale sobre o suicídio, através de um diálogo aberto, sincero e livre de julgamentos, reduz a possibilidade de tentativas, pois ajuda a diminuir o estigma, que está tão internalizado nesses indivíduos.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), abordagem da Psicologia que eu utilizo, trata o paciente suicida com técnicas que visam à reestruturação do pensamento, do humor e do comportamento, e busca estratégias que modifiquem a ideação suicida e que gerem esperança para o futuro. É de extrema importância que o(a) psicólogo(a) preze por uma aliança terapêutica segura, fundamentada em cordialidade, atenção, respeito, empatia e que se adeque ao ritmo e ao funcionamento desse paciente, devido ao risco de resistência ao tratamento.

setembro amareloAlém das psicoterapias, existem outros meios de ajuda, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio de forma voluntária e gratuita, atendendo todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob absoluto sigilo por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas por dia. O CVV é uma associação civil sem fins lucrativos e filantrópica. Todos os voluntários que prestam serviço para a instituição recebem treinamento para atender a população de maneira correta. O site possui a aba “links úteis” que disponibiliza sites de outras organizações que prestam ajuda para pessoas que desejam tirar a própria vida.

Recentemente, o aplicativo chamado “Tá Tudo Bem?” foi criado pela desenvolvedora front-end e designer Aline Bezzoco para auxiliar também na prevenção do suicídio. O aplicativo é gratuito e, por enquanto, só se encontra na Play Store. Ele apresenta opções em seu menu para contatos de emergência, mitos sobre o suicídio, razões para viver (que deverão ser escritas pelo próprio usuário, como uma forma de motivação) e como ajudar. Na interface inicial há um botão em vermelho com os dizeres “Preciso conversar com alguém!” e que, se acionado, liga para o CVV. O “Tá Tudo Bem?” ainda envia mensagens motivacionais no decorrer do dia, se a opção de notificações estiver ativada. Eu supervisionei as informações contidas no aplicativo e dei umas dicas para a Aline, mas o mérito todo é dela. Precisamos de mais pessoas assim!

Espero muito ter ajudado e ter levado um pouco mais de conhecimento a todos que leram esse texto! Abaixo disponibilizei os sites, telefone e link do aplicativo citados acima. E lembrem-se sempre:

NÃO É DRAMA, NÃO É PARA CHAMAR ATENÇÃO, NÃO É FALTA DE DEUS E MUITO MENOS FRESCURA!

Serviço:

Setembro Amarelo
Centro de Valorização da Vida e telefone: 141

Baixe agora o Tá Tudo Bem?

Esse texto foi uma colaboração da psicóloga Wanessa Lisbôa (CRP 05/50287) para o Delírios de Donzelas

Você Também Poderá Gostar

Comentários

Deixe seu comentário